A partir de 4 de dezembro de 2026, sabonete em barra, shampoo sólido, óleos corporais e desodorante em barra feitos à mão podem ser vendidos sem registro na Anvisa, desde que o produtor siga regras simplificadas. Para quem compra, a mudança não significa “vale tudo”: o rótulo precisa trazer a indicação “PRODUTO ARTESANAL”, e promessas como combater queda de cabelo ou caspa ficam proibidas nesses produtos. Abaixo, o que muda na prática para quem cuida da barba e do cabelo com cosméticos de pequenos produtores.
O que a Anvisa decidiu
A agência publicou no Diário Oficial de 5 de outubro a RDC 1.045/2026 e a Instrução Normativa 474/2026, que regulamentam a Lei 15.154/2025, sancionada em 2025 para tirar da informalidade quem fabrica cosméticos em pequena escala. O resumo oficial está na página de notícias da Anvisa. As normas entram em vigor 60 dias depois da publicação.
Na prática, o produtor artesanal fica dispensado de registro ou notificação do produto, da Autorização de Funcionamento de Empresa (AFE) e de responsável técnico. Em troca, precisa produzir em pequena escala, de forma predominantemente manual, sem terceirizar etapas, com fórmulas simples e ingredientes de segurança reconhecida. A validade máxima é de 12 meses a partir da fabricação, e a fiscalização continua com as vigilâncias sanitárias de estados e municípios.
Quais cosméticos podem ser artesanais?

A lista é fechada. Segundo a Anvisa, entram no regime artesanal sete categorias:
- perfumaria de base alcoólica (perfumes, colônias, águas perfumadas);
- odorizantes de ambiente;
- produtos sólidos para banho e imersão;
- sabonetes sólidos para o corpo;
- xampus e condicionadores sólidos;
- óleos e manteigas corporais;
- desodorantes axilares em barra.
Ficam de fora produtos com muita água na fórmula (cremes, loções e shampoos líquidos, que dependem de conservantes e testes), o simples envase ou reetiquetagem de produto industrializado e a montagem de kits. Pomada modeladora, gel e cera para cabelo também não aparecem na lista. Se você usa esses itens, a regra continua a mesma de sempre: o produto precisa estar regularizado como cosmético industrial, assunto que já explicamos no guia de pomadas para cabelo aprovadas pela Anvisa.
E o óleo de barba artesanal, entra na regra?

Esta é a dúvida mais comum de quem compra óleo e balm de pequenas marcas no Instagram ou em feiras. A comunicação oficial da Anvisa não cita produtos “para barba” pelo nome. A categoria mais próxima é a de óleos e manteigas corporais, e a agência informou que produtos usados no rosto foram admitidos depois da consulta pública, desde que respeitem os critérios de segurança. Ou seja, um óleo de barba simples, só com óleos vegetais e sem água, tende a se encaixar. Mas quem responde pelo enquadramento é o produtor.
O ponto que mais interessa a você é outro: segundo o resumo da norma publicado pelo Cremerj, óleos artesanais não podem alegar efeito terapêutico, anti-inflamatório, antienvelhecimento ou de proteção solar. Um óleo artesanal que promete “fazer a barba crescer” ou “acabar com falhas” está fora da regra. Para entender o que um bom óleo realmente entrega (hidratação, maciez e controle do frizz), vale ler nosso guia sobre óleo para barba. Se você prefere textura mais firme, o balm de barba segue a mesma lógica: ele cuida dos fios, não trata a pele.
Shampoo em barra artesanal: o que ele pode prometer

Shampoo e condicionador sólidos são a categoria que mais conversa com quem cuida de cabelo e barba. A norma limita o que esses produtos podem dizer no rótulo e na divulgação. A tabela resume o que os resumos oficiais e o do Cremerj descrevem:
| Produto artesanal | Pode prometer | Não pode prometer |
|---|---|---|
| Shampoo e condicionador sólidos | Limpeza, condicionamento e brilho dos fios | Combate à queda, tratamento da caspa, estímulo ao crescimento |
| Sabonete sólido para o corpo | Limpeza | Efeito terapêutico, antiacne, clareador ou antibacteriano |
| Óleos e manteigas corporais | Hidratação e cuidado cosmético | Efeito terapêutico, anti-inflamatório, antienvelhecimento, proteção solar |
| Desodorante em barra | Função desodorante | Ação antitranspirante (a versão artesanal é sem sais de alumínio) |
Na prática, se a sua barba descama ou coça, um shampoo artesanal não é o caminho para tratar o problema. Um produto anticaspa precisa de ativos específicos e de regularização industrial; explicamos como escolher em shampoo anticaspa para barba. Já para a limpeza do dia a dia, um sabonete ou shampoo em barra bem formulado pode funcionar. Veja as diferenças entre os dois em shampoo ou sabonete para barba.
Como conferir o rótulo antes de comprar

Sem número de registro para consultar, o rótulo vira a sua principal ferramenta. Pelas regras novas, ele precisa trazer estas informações. Use a lista como checagem rápida, na feira ou no anúncio:
- A indicação “PRODUTO ARTESANAL” escrita de forma visível.
- Nome do produto e identificação de quem fabricou.
- Endereço de produção e um contato para reclamações.
- Lista de ingredientes completa.
- Data de fabricação e validade (no máximo 12 meses depois).
- Peso ou volume.
- Frases de advertência, incluindo, quando for o caso, que o produto não se destina a bebês, crianças, gestantes ou idosos.
Outra mudança importante: a venda precisa ser direta, do produtor para você. Pode ser em loja própria, feira, rede social, site ou marketplace do próprio produtor. Revenda por terceiros não é permitida. Então, se você encontra um “artesanal” sendo revendido por uma loja grande, ele precisa ter registro como cosmético comum.
Diga e evite na hora de comprar de um pequeno produtor
Diga: “Qual é a data de fabricação deste lote?” A validade curta é uma característica do regime artesanal, e um produtor sério sabe responder.
Diga: “Tem a lista de ingredientes completa?” Se você tem pele sensível ou já reagiu a algum óleo essencial, é ali que você descobre.
Diga: “Por onde eu falo com vocês se der reação?” O produtor é obrigado a manter canal de atendimento e registrar reclamações.
Evite: produto artesanal que promete “parar a queda”, “acabar com a caspa”, “preencher falhas da barba” ou “clarear manchas”. Essas alegações não são permitidas no regime artesanal.
Evite: loção, creme ou shampoo líquido vendido como artesanal sem registro. Produtos com muita água ficaram fora da simplificação justamente pelo risco de contaminação.
Evite: rótulo sem data, sem endereço ou sem ingredientes. Depois de dezembro, isso é sinal de produto fora da norma.
Artesanal é mais seguro ou mais natural?
Não necessariamente. “Artesanal” descreve a forma de produzir, não a qualidade nem o quanto o produto é suave para a pele. Óleos essenciais, por exemplo, são naturais e ainda assim podem causar irritação ou alergia, principalmente no rosto. A nova regra cria um piso de segurança (ingredientes de uso reconhecido, fórmulas simples, controle de validade), mas a fiscalização acontece depois que o produto já está à venda.
Uma boa prática vale para qualquer cosmético novo, artesanal ou industrial: teste uma pequena quantidade em uma área discreta da pele antes de espalhar pela barba inteira. Se aparecer vermelhidão, coceira forte ou descamação que não passa, suspenda o uso e procure um dermatologista, principalmente se a queixa for queda de cabelo, caspa persistente ou falhas na barba, que são problemas de saúde e não se resolvem com cosmético.
O que muda até dezembro
Até 4 de dezembro, as regras antigas continuam valendo. A partir dessa data, pequenos produtores que seguirem a norma passam a vender de forma regular, e quem não cumprir todos os critérios continua obrigado a seguir as regras da indústria. Para você, a mudança é positiva: mais marcas pequenas saindo da informalidade e um rótulo padronizado para conferir. O cuidado é não confundir “regularizado” com “milagroso”. Produto artesanal bom limpa, hidrata e perfuma, e é exatamente isso que ele pode prometer.




